
Matarrachos
Sérgio Amaral Nasceu em 1959, em Santa Luzia, Mangualde
Teve um período (1978 a 1982) em que se dedicou muito à pintura, tendo realizado algumas exposições. Depois disto experimentou a magia do volume, usando novos materiais, como o ferro e o barro. Começou assim o seu percurso pela cerâmica, com especial interesse pelo barro negro. Com entusiasmo falou-nos na técnica que explora muito e sobre a qual dá também workshops: o Rakú.
Sobre Sérgio Amaral, a imprensa diz:
. "O artista pega no tema. E o que faz? Cria uma árvore, crava-a de ferros. Chama-lhe S. Sebastião e já está. (...) O que interessa mesmo, é a árvore a que se encontra amarrado. (...) Outro santo. Desta vez o popular António. (...) Nas mãos, o menino e o livro. Igualzinho ao habitual? Nem por isso. Em vez de uma, o santo é representado com quatro caras. (...) Cristo também é chamado a terreiro. A figura do Nazareno é pendurada numa cruz desproporcional. Proporcionalmente descomunal. (...) Há, por exemplo, o cavaleiro á conquista do mundo. Ou a pudica. Uma rapariga que com a mão tapa o sexo. Mas que com a outra acaricia o seu seio. Mas há também a maternidade. E a mamã grávida. E a união - conjunto de figuras unidas no rebordo de uma vasilha. Também há espaço para a sensualidade."
No seu atelier em Santa Luzia, Mangualde, Sérgio Amaral, recebeu-nos da melhor maneira possível. Foi tão bom que só o espaço exterior que envolve o atelier, por ele criado, é uma “obra de arte”. Disse-nos o artista que precisa da água e da natureza para poder criar. Assim, este modelou o seu espaço, às suas necessidades. Não faltou sequer a água que não é abundante por lá.
Explicou-nos, como se processava a cozedura do barro: “é um processo muito engraçado, porque metemos as peças no forno a uma alta temperatura, depois de retirada do forno é envolvida em serradura e mergulhada em água.(….) A carburação, dá-se quando se retira do forno o oxigénio, e na sua substituição, gera-se uma atmosfera com muito dióxido de carbono, chama-se atmosfera redutora, é nesse processo químico que se faz o barro negro.”
Depois, colocando-se na roda de oleiro, explicou-nos como levanta as suas peças de escultura. O corpo das figuras é feito na roda, como quando se faz uma jarra. Tudo o resto é depois acrescentado: “O barro trabalha-se em três fases essenciais, na primeira fase centra-se o barro, na segunda abre-se e na terceira faz-se o fundo”.
Alguns colegas ainda experimentaram … parecia tão simples! o Luís e o André tentaram levantar uma peça na roda de Oleiro. Quase conseguiram… mas afinal o que parece tão simples nas mãos do Sérgio Amaral é tão difícil nas nossas.
Mostrou-nos também um pouco da sua obra: pinturas, esculturas (em cerâmica e noutros materiais, porque o Sérgio Amaral sente necessidade de experimentar)
Da conversa que teve connosco ficam aqui alguns excertos, que respondem a algumas perguntas do questionário que previamente preparámos:
Nós – Quando é que se apercebeu que era este o caminho que queria seguir? E porquê?
Sérgio - Vivi em Lisboa, vivi em Almada e foi nos meus 17 anos que me apercebi que era este caminho a seguir. Por vezes as fatalidades influenciam-nos um pouco, o que foi o meu caso, mas hoje em dia sinto-me feliz pelo caminho que escolhi.
Nós – Que correntes artísticas, artistas ou ideias filosóficas o influenciaram? - Fale-nos um pouco do seu percurso artístico
Sérgio - Não me sinto influenciado por nenhuma corrente artística, talvez tocado. Por exemplo gosto muito do Van Gogh, do Pablo Picasso, mas julgo que é só um simples gosto. Sinto-me mais influenciado pelos factores sociais, por tudo aquilo que vemos na televisão, as guerras e os problemas das pessoas.
Nós –Já desenvolveu trabalho com outros artistas? Quais e que resultados tirou daí?
Sérgio - Já fiz alguns trabalhos, é sempre bom, trocamos experiências e …bebem-se uns copos
Nós - O que quer representar, nas suas obras?
Sérgio - Nos meus quadros mexo com a política, a sociedade…È uma coisa que eu sonho em alterar, mas que não passa de um sonho. (…) Mas a humanização está sempre presente nas minhas obras.
Nós –Então que mensagens, quer transmitir?
Sérgio - A mensagem das minhas obras transmite a maldade do homem. O homem destrói primeiro a cabeça das pessoas, antes de as destruir com as armas, é este o homem sanguinário (…) . No fundo, as minhas obras são feitas de monstros.
Transmito também em algumas das minhas obras, os meus medos de infância, com os espíritos da floresta, com aquelas árvores assustadoras, que parecia que me queriam devorar…
Nós – Acha que as pessoas entendem o seu trabalho? Dão-lhe valor?
Sérgio - Em Portugal não são muito bem aceites, em Espanha já é diferente.
Nós – Que materiais e técnicas utiliza? Porquê?
Sérgio - Resinas, ferro, madeira e tudo o que acho que possa ser útil.
Prefiro no entanto o barro, porque o barro é a pureza, que nos coloca junto da natureza.
Nós- e o que gosta mais de fazer? Vemos aqui peças pequenas, de maior dimensão, vemos pintura e escultura
Sérgio - Gosto mais de objectos enormes.
Eu acho que a pintura e a escultura se podem ligar, até porque uma escultura pode ser pintada.
Nós - Que conselhos nos pode dar, a nós, alunos de artes?
Sérgio - que vos dou é para não desistirem dos vossos objectivos.
Nós – Por favor, diga-nos qual a sua definição de Arte?
Sérgio - Arte é uma forma de extravasar emoções e sentimentos, pode nunca vender-se uma obra e ser-se um grande artista.
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